segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Vida de Che em BD, nos 50 Anos da sua Morte

A Vida de Che
08 de Outubro
Argumento –Hector Germán Oesterheld
Desenhos – Alberto Breccia e Enrique Breccia
Por + 11,90€

A PAIXÃO SEGUNDO CHE GUEVARA

Há livros que, pelas circunstâncias que rodeiam a sua história, acabam por adquirir uma carga mítica. Títulos mais falados do que efectivamente lidos. Obras em que a lenda se sobrepõe à história e que, à sua maneira, fazem também história. É o caso desta biografia de Ernesto Che Guevara, ícone da revolução cubana, escrita por Hector German Oesterheld e ilustrada por Alberto e Enrique Breccia, três expoentes máximos da BD argentina e mundial, que conhece finalmente uma edição portuguesa, no preciso momento em que se completam 50 anos sobre a morte do Che, a 9 de Outubro de 1967, quando a sua tentativa de estender a revolução cubana a toda a América Latina, foi parada pelas balas do exército boliviano.
Apenas três meses após a morte de Che Guevara, em Janeiro de 1968, chegava às livrarias argentinas a Vida del Che, a biografia em banda desenhada de Ernesto Guevara de la Serna, o médico argentino que entraria para a história como Che Guevara, o líder revolucionário que ao lado de Fidel Castro, chefiou a revolução cubana. A ideia, plena de oportunidade, partiu do editor Jorge Alvarez, responsável por uma das principais editoras argentinas da época, que, para além de publicar diversos escritores argentinos, foi o primeiro a editar em livro as tiras da Mafalda, de Quino. Poucas semanas após a morte do Che, Alvarez propôs a Oesterheld e a Alberto Breccia – que o magnífico Mort Cinder, que a Levoir publicou na primeira série dedicada à Novela Gráfica tinha mostrado serem  os maiores autores argentinos da época - que contassem a vida (e a morte) de Che Guevara em Banda Desenhada, sugerindo-lhes que o fizessem de forma anónima, tendo em conta a volátil situação política da Argentina de então. Oesterheld, que nunca foi homem de esconder as suas convicções e ideais, respondeu assim ao editor: “uma história com um personagem como o Che não merece ser feita às escondidas. Por isso, não só quero assinar o argumento, como quero o meu nome bem visível na capa”. Face à urgência de ter o livro pronto o mais rápido possível, Alberto Breccia dividiu o trabalho com o seu filho Enrique que, com 22 anos, se estreou em livro precisamente com esta biografia do Che, assinando os dois o desenho.
Apesar do sucesso comercial da edição, com 60.000 exemplares vendidos em poucas semanas, os tempos não se avizinhavam fáceis. Pouco depois do jornal diário La Nación ter alertado num editorial para o perigo da existência de uma BD sobre um personagem revolucionário como o Che, a sede da editora foi invadida e o que restava da edição foi confiscada, juntamente com as pranchas originais dos Breccia, que foram destruídas. Em 1973, com a chegada ao poder da junta militar, o livro é oficialmente proibido e em 1977, o próprio Oesterheld juntamente com as suas quatro filhas, engrossa a vasta lista dos “desaparecidos”.
A Vida do Che só veria a luz do dia novamente em meados da década de 80, em Espanha, numa luxuosa edição da editora basca Ikusager, que durante vários anos, foi a única edição disponível dessa obra. E é a partir daqui que a lenda se vai sobrepondo à história. Primeiro, através da ideia de que a morte de Oesterheld se deveu a ter escrito A Vida do Che. Uma ideia difundida pelo jornalista e escritor italiano Alberto Ongaro - que, com Hugo Pratt, fez parte do famoso Grupo de Veneza, um punhado de autores italianos que foi trabalhar para a Argentina nos anos 50 - e que em 1979, ao tentar descobrir o paradeiro do escritor, encontrou alguém que lhe disse que Oesterheld tinha sido morto por ter escrito “a mais bela biografia de Che Guevara jamais feita”. Depois, com a referência, na edição da Ikusager, de que o livro tinha sido impresso tendo por base um exemplar que o próprio Alberto Breccia teria enterrado no seu quintal. 
Mesmo que a biografia do Che tenha ajudado a pôr Oesterheld debaixo do radar dos militares, foi a sua participação activa na guerrilha Montonera, um movimento rebelde de esquerda, onde também militavam as suas quatro filhas, que fez com que ele e sua família se tornassem um alvo fácil para a Junta Militar, acabando por engrossar a lista de perto de trinta mil “desaparecidos” que mancham com o seu sangue essa página negra da história argentina.
Quanto à lenda do livro enterrado no quintal, o próprio Enrique Breccia não lhe dá grande crédito dizendo: “É verdade que o livro foi confiscado poucos meses depois da sua saída, mas através de Jorge Alvarez ficámos a saber que se vendeu muito bem e que obteve uma boa repercussão geral. Mas ninguém nos perseguiu ou incomodou. Nenhum militar apareceu em minha casa, ou em casa do meu pai. E essa história do meu pai enterrar um exemplar no jardim é algo que desconheço, mas é uma questão de senso comum: porque é que seria preciso enterrar um único exemplar? Os originais foram destruídos, mas não os milhares de exemplares que se venderam, que são os que se continuam a utilizar para as sucessivas reedições do livro. Por outro lado, as nossas vidas nunca correram nenhum perigo, excepto o de morrermos de fome devido à miséria que recebíamos pelo nosso trabalho.” 
A ideia inicial de Oesterheld era fazer duas histórias separadas, com o “Viejo” a contar a vida de Ché, enquanto o seu filho Enrique se ocupava da sua morte na Bolívia, acabando finalmente por optar por uma alternância dos capítulos que dá outra força à narrativa, ao colocar em confronto o homem e o mito em que o Che se tornou ao dar a vida pelo seu ideal revolucionário. Espartilhado pelo peso da documentação e da muita informação a transmitir, Alberto Breccia teve muito menos autonomia do que o seu filho Enrique, que recebeu um argumento apenas com os diálogos e nada mais, o que lhe permitia fazer “aquilo que quisesse”. Mas a verdade é que tanto pai como filho, que tem aqui uma estreia absolutamente fulgurante na BD, dão o melhor de si. O “viejo” Alberto conciliando o rigor quase fotográfico exigido pela documentação, com um uso de colagens e recortes extremamente inovador, enquanto o seu filho Enrique levava ainda mais longe o alto contraste do preto e branco usado pelo seu pai em Mort Cinder, colocando-o ao serviço de um traço expressionista que acentua a dimensão crística do martírio do Che, bem evidente nas últimas páginas, em que a imagem do guerrilheiro morto se aproxima de forma evidente da iconografia do Cristo crucificado.
O resultado, independentemente das questões ideológicas, é um livro intemporal. Um verdadeiro clássico que, tal como Mort Cinder, mantém toda a sua força e modernidade cinquenta anos após a sua publicação inicial. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Novela Gráfica III 15 - O Idiota


DAS PALAVRAS DE DOSTOIEVSKI 
AOS DESENHOS DE ANDRÉ DINIZ

Novela Gráfica III – Vol. 15
O Idiota
Sexta-feira, 06 de Outubro
Argumento – Dostoievski e André Diniz
Desenho – André Diniz
Por + 9,99€
Com a publicação na próxima sexta-feira, em estreia mundial, da adaptação de O Idiota, de Fiodor Dostoievski, feita por André Diniz, chega ao fim esta terceira série da colecção Novela Gráfica. E se os autores espanhóis dominaram esta terceira série, o volume final vem mostrar que a Banda Desenhada não tem fronteiras, nem espaciais nem temporais, pois O Idiota é uma adaptação de um romance de um escritor russo do século XIX, feita no século XXI em Portugal por um autor brasileiro.
Se a adaptação à banda desenhada de textos literários é um género com grande tradição, tanto em Portugal como no resto do mundo, não deixa de ser uma aposta arriscada, face às especificidades da linguagem da BD, que são bem diferentes das da literatura. Por isso, a excessiva reverência pelo texto literário original pode levar a um resultado que está mais próximo do texto ilustrado do que da verdadeira banda desenhada. A adaptação de Os Lusíadas, de Luís de Camões, que José Ruy fez nos anos 80, ou o bem mais recente As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal, de Miguel Moreira e Catarina Verdier, são dois bons exemplos de obras que sofrem deste problema, que afecta de forma notória a fluidez da leitura.
Por ter um domínio exímio da linguagem da banda desenhada, André Diniz, um dos mais premiados autores brasileiros da actualidade, que reside em Portugal desde 2016, opta por uma aproximação muito mais arriscada ao romance de Dostoievski, abdicando completamente do texto do escritor russo, para contar a história do Píncipe Liev Michkin recorrendo apenas à arte sequencial.
Este ambicioso projecto de transformar um livro de mais de 700 páginas numa Banda Desenhada maioritariamente muda (das mais de 400 páginas de O Idiota, pouco menos de 30 contém curtos diálogos) teve um parto demorado, com algumas falsas partidas, que não impediram o autor de levar a sua missão a bom termo.
Já em 2012, numa entrevista ao site Omelete.com., André Diniz falava sobre o projecto de adaptação de O Idiota, referindo: “Eu me apaixonei pelo livro, embora ele seja bem verborrágico em muitos momentos, e decidi fazer uma adaptação diferente. A HQ vai no caminho oposto daquele no qual a obra é escrita: serão mais de 300 páginas sem texto, com cores expressionistas e cenários minimalistas. Foi a forma que eu encontrei de me aproximar daquela essência do personagem que tanto me fascinou”
Dessa primeira versão, resultaram pouco mais de 100 páginas, finalizadas e coloridas por Marcela Mannheimer, com quem o autor já tinha colaborado em Negrinho do Pastoreio, que acabaram por ser descartadas. Houve ainda uma versão intermédia, já a preto e branco, que também ficou pelo caminho até que, em Maio de 2016, numa altura em que André Diniz já estava a morar em Portugal, arrancou com a versão final, em que as cores expressionistas dão lugar a um preto e branco contrastado, com o cinzento como segunda cor, a dar textura e profundidade aos desenhos, num registo bastante original que, apesar de ser totalmente digital, evoca a xilogravura.
Tendo desenhado em menos de um ano as mais de 400 páginas que compõem este livro, que então era inteiramente sem palavras, André Diniz não se importou, e bem, de alterar ligeiramente as regras do jogo, introduzindo, com grande parcimónia e de forma judiciosa alguns (poucos) diálogos, que possibilitam ao leitor menos familiarizado com o romance do Dostoievski uma mais fácil compreensão da complexa história imaginada pelo escritor russo.
O resultado é uma adaptação, tão original como conseguida, de um clássico da literatura mundial, publicada em Portugal antes de sair no Brasil e em França, que vem provar que é perfeitamente possível fazer “literatura desenhada” - termo que Hugo Pratt preferia para designar a BD- contando com a força das imagens e com a sua articulação sequencial, para contar uma história (quase) sem palavras.
Publicado originalmente no jornal Público de 30/09/2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 14 - Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo


UM BAR CHEIO DE HISTÓRIAS

Novela Gráfica III – Vol. 14
Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo
29 de Setembro
Argumento e Desenho – Tomeu Pinya

Por + 9,90€

Aqui fica a terceira e última introdução que escrevi para a série III da colecção Novela Gráfica. Como sempre acontece nestes casos, para ler o texto que saiu no Público, basta clicar na respectiva imagem.

A CASA DAS HISTÓRIAS

Uma pequena aldeia branca, numa ilha perdida no Mediterrâneo. Nessa aldeia, como em todas as outras, temos um bar que se enche de turistas no Verão e de velhos a jogar o dominó durante todo o ano. Mas o que torna este bar diferente é o seu dono: Rafa, o barbudo do título, que é um viciado em histórias e que através das histórias que os seus clientes lhe contam, em troca comida ou de uma bebida, viaja por todos os mares do mundo, sem sair da sua pequena ilha.
Este é o ponto de partida para Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo, esta história de histórias salpicada de Mediterrânico, publicada originalmente em Espanha, pela editora Planeta Agostini em 2009 e que valeu ao seu autor, Tomeu Pinya, o Prémio Popular Autor Revelação no Salón del Cómic de Barcelona, em 2010.
De seu nome completo, Bartolomeu Pinya Oliver, Pinya nasceu em 1982, em Palma de Maiorca e licenciou-se em Belas Artes pela Universidade de Barcelona, em 2004 e em Comunicação audiovisual, pela Universidade Pompeu Fabra, em 2006 e, embora Uma Aldeia Branca tenha sido o seu livro de estreia, o seu percurso na BD não começou aí. Como o próprio refere numa entrevista: “comecei em revistas escolares e universitárias. Estive muito tempo desenhando exclusivamente para mim, e a primeira vez que tentei um projecto sério foi para o apresentar às editoras.
Na verdade, já tinha a primeira história de Uma Aldeia Branca quatro anos antes de ser publicada, mas não me atrevi a mostrá-la a um editor senão dois anos depois, por timidez e insegurança.” A solução encontrada por Pinya para vencer essa insegurança, foi testar essas histórias, de forma isolada, enviando-as a diferentes concursos de BD, antes de as reunir numa obra de maior fôlego. E a certeza de que ali estava um bom livro em potência, chegou, quando algumas das histórias que acabariam por formar o livro, foram premiadas, como aconteceu com Cartes (Prémio ArtJove 2006), Sherezade (Prémio Sant Jordi UPF 2006) y Coloms (XI Prémio Jove d’Igualada).
Por isso, diz Pinya: “Quando finalmente apresentei o projecto, tinha já suficiente confiança no meu traço e um conhecimento do mercado que me permitia intuir que aquilo era publicável, que não estava a fazer perder tempo aos editores com o meu trabalho. Outra coisa era conseguir publicar, claro, mas finalmente a editora Planeta mostrou-se interessada e assim que pude começar a trabalhar de maneira profissional.”
O livro, que assinala a estreia de mais um autor espanhol na colecção Novela Gráfica, é uma obra coral, povoada de personagens com histórias para contar e que, além de Rafa, o dono do bar e de Núria e Marga, as empregadas, inclui naturalmente os clientes do bar. Clientes como Pantaléon, o vagabundo carregado de histórias; Eduardo Corona, o escritor argentino em busca de inspiração; Ignacio, o velho criador de pombos; Lucia, a fotógrafa de guerra: Don Nicolas, que espera (e desespera) pelas cartas do seu velho amor; o marinheiro Bernet Colóm, um Ulisses que regressa sempre a Núria, a sua Penélope, Hugo, o desenhador que não compreende a arte moderna; Kurt, o alemão de aspecto ameaçador e coração de ouro; e Fátima, a Sherezade por quem Rafa sonhou toda a vida.
Se tivermos em conta que o livro se passa numa ilha do Mediterrânico, como Palma de Maiorca, onde Tomeu nasceu, e que o autor, tanto nas fotografias como nos auto-retratos, se apresenta sempre com uma pujante barba, como Rafa, o barbudo dono do Bar, a tentação para encontrar reflexos autobiográficos neste livro é grande, mas deixemos que seja o próprio Tomeu a marcar as distâncias entre a sua vida e a sua arte: “Bem, a verdade é que mesmo que o enquadramento (a ilha, a natureza, etc.) tenha a ver com as minhas próprias vivências, eu nasci e cresci em Palma, que é uma cidade bastante grande. A aldeia, portanto, é uma invenção que me serve para caracterizar os personagens e facilitar que os seus encontros. É um recurso narrativo mais do que resultado das minhas próprias vivências. Há uma parte de mim mesmo em algumas histórias, mas mais na maneira como reflectem a minha maneira de ver as coisas, do que por estarem baseadas em algo que me aconteceu. Procuro usar a minha experiência para dar realismo aos personagens, para que o leitor possa ter a sensação de que os conhece e se reconheça neles.
Rafa, o protagonista, representa, claro, aquele lado de todos nós que queria ter um bar onde vão os amigos divertir-se, sem pensar demasiado nos horários nem no trabalho duro. É também uma projecção de mim: a parte de mim que não pode viver sem histórias.
Mas não creio que fosse feliz sendo apenas o Rafa. Há outros personagens que também sou e necessito ser, como Pantaleón, o narrador vagabundo, que é o que sabe contar as histórias, ou Eduardo, o escritor argentino, que além disso luta com  elas para  as armar e dar-lhes sentido e profundidade.”
Em termos gráficos, é interessante constatar, como o traço caricatural predominante, servido por uma leve aguada de guache cinzento, dá lugar a outros registos gráficos distintos, de acordo com as necessidades da narrativa, seja para dar maior realismo às brincadeiras das crianças, seja para homenagear Sergio Toppi (e também o Sandman de Neil Gaiman) na história contada por Fátima.
Não estamos perante um exercício de virtuosismo gratuito, mas uma mudança ditada pelas características da história a contar. Dê-mos pela última vez, a palavra ao autor: “Sim, posso dizer que me interessa mais a capacidade da Banda Desenhada para explicar historias, do que a gramática própria da BD. Não faço BD experimental, mesmo que explore os recursos narrativos da BD, enquanto sirvam ao propósito da narração. Neste aspecto, o meu interesse centra-se em criar tramas atraentes, com significado, cheias de personagens complexos e interessantes, com quem o leitor se possa identificar. Veremos se o consigo.” Para mim, não restam grandes dúvidas de que o conseguiu. Quanto ao prezado leitor, bastará continuar a leitura, para o descobrir.

domingo, 17 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 12 - Os Trilhos do Acaso 1

PACO ROCA E A HISTÓRIA DE “LA NUEVE”

Novela Gráfica III – Vol. 12
Os Trilhos do Acaso – Parte 1
15 de Setembro
Argumento e Desenho – Paco Roca
Por + 9,99€
Depois de O Inverno do Desenhador e A Casa, Paco Roca regressa ao convívio dos leitores portugueses com Os Trilhos do Acaso, obra que ocupará os volumes 12 e 13 desta terceira série da colecção Novela Gráfica. Obra monumental e de grande fôlego, o que implicou a sua divisão em dois volumes por questões editoriais, Os Trilhos do Acaso reconstrói a história de La Nueve, a companhia militar francesa integrada na segunda divisão do General Leclerc, que, sob o comando do Capitão Dronne foi a primeira a entrar em Paris, no final da II Guerra Mundial. Uma companhia que tinha a particularidade de ser formada maioritariamente por espanhóis republicanos, exilados em Marrocos, após a vitória de Franco, cuja história vamos descobrir através das recordações de Miguel Ruiz Campos, antigo combatente exilado em França, que Paco Roca entrevista.
Uma história apaixonante e esquecida, sobre a contribuição espanhola na Segunda Guerra Mundial, que Paco Roca conta com mestria, usando como protagonista, “um personagem verdadeiro, mas inventado”. Mas deixemos que seja o próprio Paco Roca a explicar melhor quem foi Miguel Ruiz: “Queria que fosse um soldado real porque as movimentações da maioria deles estão bem documentadas e não funcionava tão bem inventar um soldado. Estive indeciso entre vários. Um deles, que talvez tivesse sido o mais lógico, era Amado Granell, o tenente de La Nueve, mas morreu num acidente de carro nos anos setenta. A outra opção era cingir-me aos três que estavam vivos. Mas em primeiro lugar, esses três já tinham contado muitas vezes a sua vida; em segundo lugar, nenhum dos três esteve na libertação de Paris, e em terceiro lugar, custava-me muito cingir-me a uma pessoa que estivesse viva.
Ainda assim, descobri que um dos integrantes de La Nueve, Miguel Campos, era um tipo muito enigmático. Quase todo o que sabemos de La Nueve vem dos diários de campo do Capitão da companhia, Raymond Dronne, que na década de setenta os reescreveu e publicou. Ele fala de todos os espanhóis, sobretudo dos oficiais, e do resto não diz nada. E aquele de quem mais fala é de Miguel Campos, dizendo que, ainda que não fosse um militar de carreira — como todos os espanhóis, que estavam ali porque foram apanhados no meio da Guerra Civil e estavam ali metidos sem serem militares— tinha uma grande visão militar da estratégia, autoridade de comando, era muito valente e era capaz de infiltrar-se nas linhas inimigas para operações de sabotagem. Dedica-lhe bastantes páginas. E o melhor é que teve um final de vida muito misterioso e novelesco, porque desapareceu numa missão depois da libertação de Paris. Para alguns morreu ali, mas como não se encontrou o seu corpo, especulou-se muito sobre o que lhe teria acontecido. Especulou-se muito, mas como muitos espanhóis tinham nomes falsos — mudaram-nos porque tinham desertado da Legião Estrangeira ou tinham medo de que se fossem capturados afectasse as suas famílias— era impossível seguir o rastro de Miguel Campos. Pareceu-me um bom personagem novelesco e usei-o como protagonista para a minha história.”
Uma história que é contada a dois tempos, entre a actualidade e as décadas de 30 e 40, com as conversas entre o autor e Miguel Ruiz a preto e branco e as recordações do antigo combatente a cores, numa curiosa inversão do esquema tradicionalmente usado para os flashbacks. História, que neste primeiro volume, inclui a evacuação do porto de Alicante; a morte do poeta António Machado, autor do poema de onde Paco Roca tirou o título do seu livro; a passagem por um campo de trabalho; o exílio no norte de África; o alistamento no exército francês e o treino de guerra. Já para acompanhar o regresso à Europa de Miguel Ruiz e dos seus companheiros de La Nueve, o leitor terá de esperar até dia 22 de Setembro, dia em que estará à venda a segunda, e última, parte desta história épica.
Publicado originalmente no jornal Público de 09/09/2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 11 - Tempos Amargos


AS CONFISSÕES DE UM ALCOÓLICO

Novela Gráfica III – Vol. 11
Tempos Amargos
08 de Setembro
Argumento e Desenho – Etienne Schréder
Por + 9,99€
Depois de Histórias do Bairro, de Bartolomé Segui e Gabi Beltran, as histórias autobiográficas voltam a estar no centro de mais um volume desta colecção, com Tempos Amargos, de Etienne Schréder, em que o autor relata com grande honestidade, num livro “inspirado e frágil”, como bem o classifica François Schuiten, o seu passado de alcoólico, que o levou a abandonar tudo e a viver uma existência de marginalidade, tendo-se tornado um sem-abrigo.
Nascido em 1950, Etienne Schréder é actualmente um dos responsáveis gráficos da série Blake e Mortimer, tendo colaborado nos álbuns O Estranho Encontro, A Maldição dos Trinta Denários, A Onda Septimus e O Bastão de Licurgo, mas os leitores portugueses conhecem-no também graças ao livro O Segredo de Coimbra, que já teve três edições nacionais. Mas, embora fosse leitor de BD na infância e na adolescência, a vida profissional de Schréder iniciou-se numa área completamente diferente, porque depois de concluir os seus estudos em direito e em criminologia, o autor arranjou emprego no sistema prisional, na prisão de Bruxelas. Um emprego tão monótono como frustrante que lhe destruiu as ilusões sobre o sistemas judicial belga e que o obrigava a confrontar-se com uma realidade de que só conseguia fugir refugiando-se no álcool, até acabar por ser despedido.
Este livro debruça-se precisamente sobre o período de cinco anos, entre 1979 e 1984, em que Schréder, parafraseando Mário Cesariny, “fechou os olhos frente ao precipício e caiu verticalmente no vício”. Esse relato, sem grandes concessões, mas com algum pudor, pois como o próprio reconhece: “não se pode dizer tudo, um livro não é um esgoto”, centra-se sobretudo nos seus companheiros de adição e de marginalidade, deixando praticamente de fora a vida familiar do autor. Seja os seus pais, que apenas aparecem (sintomaticamente) no início do livro como fantasmas, passando pela ex-mulher, que está totalmente ausente, ou até os seus filhos, a quem o livro é dedicado.
Como bem refere João Ramalho Santos no prefácio, há um certo paralelismo entre Tempos Amargos e Journal d’une Disparition (Shissō Nikki) do japonês Hideo Azuma, um autor de mangá alcoólico que também viveu como um sem-abrigo, mas se Azuma manteve o seu estilo caricatural que usava nos seus trabalhos mais comerciais para este relato autobiográfico, já Schréder afasta-se da limpidez da “linha clara” de O Segredo de Coimbra, ou da série Blake & Mortimer, para abraçar um registo mais expressionista, feito de aguadas de guache, altos contraste de preto e branco, enquadramentos angulosos e perturbadores, com os cenários, desenhados com precisão fotográfica em O Segredo de Coimbra, a serem aqui por vezes apenas sugeridos, sem que com isso percam força. Veja-se, por exemplo, a sombra ameaçadora do Palácio de Justiça de Bruxelas, que domina a página 33. Em suma, uma mudança de registo perfeitamente adequada às necessidades da história e que mostra bem o domínio apurado que Schréder possui dos mecanismos narrativos da BD.
Outra diferença fundamental entre Schréder e Azuma, é que, se o segundo se refugiou no álcool para fugir à pressão dos prazos que uma carreira de autor de mangá de sucesso obriga, já Schréder encontrou na BD a realização pessoal e profissional. Isso sucedeu graças a um curso nocturno de BD ministrado por Alain Goffin, que frequentou em 1984 e que lhe possibilitou trabalhar com diversos autores, como o próprio Goffin, Yslaire, Raoul Servais e sobretudo com Schuiten e Peeters, dupla que teve um peso decisivo na sua afirmação como autor completo. Um autor que neste tocante Tempos Amargos, revela todo o seu talento e sensibilidade pela forma como consegue transmitir ao leitor um momento marcante e complexo da sua vida.  
Publicado originalmente no jornal Público de 02/09/2017