domingo, 17 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 12 - Os Trilhos do Acaso 1

PACO ROCA E A HISTÓRIA DE “LA NUEVE”

Novela Gráfica III – Vol. 12
Os Trilhos do Acaso – Parte 1
15 de Setembro
Argumento e Desenho – Paco Roca
Por + 9,99€
Depois de O Inverno do Desenhador e A Casa, Paco Roca regressa ao convívio dos leitores portugueses com Os Trilhos do Acaso, obra que ocupará os volumes 12 e 13 desta terceira série da colecção Novela Gráfica. Obra monumental e de grande fôlego, o que implicou a sua divisão em dois volumes por questões editoriais, Os Trilhos do Acaso reconstrói a história de La Nueve, a companhia militar francesa integrada na segunda divisão do General Leclerc, que, sob o comando do Capitão Dronne foi a primeira a entrar em Paris, no final da II Guerra Mundial. Uma companhia que tinha a particularidade de ser formada maioritariamente por espanhóis republicanos, exilados em Marrocos, após a vitória de Franco, cuja história vamos descobrir através das recordações de Miguel Ruiz Campos, antigo combatente exilado em França, que Paco Roca entrevista.
Uma história apaixonante e esquecida, sobre a contribuição espanhola na Segunda Guerra Mundial, que Paco Roca conta com mestria, usando como protagonista, “um personagem verdadeiro, mas inventado”. Mas deixemos que seja o próprio Paco Roca a explicar melhor quem foi Miguel Ruiz: “Queria que fosse um soldado real porque as movimentações da maioria deles estão bem documentadas e não funcionava tão bem inventar um soldado. Estive indeciso entre vários. Um deles, que talvez tivesse sido o mais lógico, era Amado Granell, o tenente de La Nueve, mas morreu num acidente de carro nos anos setenta. A outra opção era cingir-me aos três que estavam vivos. Mas em primeiro lugar, esses três já tinham contado muitas vezes a sua vida; em segundo lugar, nenhum dos três esteve na libertação de Paris, e em terceiro lugar, custava-me muito cingir-me a uma pessoa que estivesse viva.
Ainda assim, descobri que um dos integrantes de La Nueve, Miguel Campos, era um tipo muito enigmático. Quase todo o que sabemos de La Nueve vem dos diários de campo do Capitão da companhia, Raymond Dronne, que na década de setenta os reescreveu e publicou. Ele fala de todos os espanhóis, sobretudo dos oficiais, e do resto não diz nada. E aquele de quem mais fala é de Miguel Campos, dizendo que, ainda que não fosse um militar de carreira — como todos os espanhóis, que estavam ali porque foram apanhados no meio da Guerra Civil e estavam ali metidos sem serem militares— tinha uma grande visão militar da estratégia, autoridade de comando, era muito valente e era capaz de infiltrar-se nas linhas inimigas para operações de sabotagem. Dedica-lhe bastantes páginas. E o melhor é que teve um final de vida muito misterioso e novelesco, porque desapareceu numa missão depois da libertação de Paris. Para alguns morreu ali, mas como não se encontrou o seu corpo, especulou-se muito sobre o que lhe teria acontecido. Especulou-se muito, mas como muitos espanhóis tinham nomes falsos — mudaram-nos porque tinham desertado da Legião Estrangeira ou tinham medo de que se fossem capturados afectasse as suas famílias— era impossível seguir o rastro de Miguel Campos. Pareceu-me um bom personagem novelesco e usei-o como protagonista para a minha história.”
Uma história que é contada a dois tempos, entre a actualidade e as décadas de 30 e 40, com as conversas entre o autor e Miguel Ruiz a preto e branco e as recordações do antigo combatente a cores, numa curiosa inversão do esquema tradicionalmente usado para os flashbacks. História, que neste primeiro volume, inclui a evacuação do porto de Alicante; a morte do poeta António Machado, autor do poema de onde Paco Roca tirou o título do seu livro; a passagem por um campo de trabalho; o exílio no norte de África; o alistamento no exército francês e o treino de guerra. Já para acompanhar o regresso à Europa de Miguel Ruiz e dos seus companheiros de La Nueve, o leitor terá de esperar até dia 22 de Setembro, dia em que estará à venda a segunda, e última, parte desta história épica.
Publicado originalmente no jornal Público de 09/09/2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 11 - Tempos Amargos


AS CONFISSÕES DE UM ALCOÓLICO

Novela Gráfica III – Vol. 11
Tempos Amargos
08 de Setembro
Argumento e Desenho – Etienne Schréder
Por + 9,99€
Depois de Histórias do Bairro, de Bartolomé Segui e Gabi Beltran, as histórias autobiográficas voltam a estar no centro de mais um volume desta colecção, com Tempos Amargos, de Etienne Schréder, em que o autor relata com grande honestidade, num livro “inspirado e frágil”, como bem o classifica François Schuiten, o seu passado de alcoólico, que o levou a abandonar tudo e a viver uma existência de marginalidade, tendo-se tornado um sem-abrigo.
Nascido em 1950, Etienne Schréder é actualmente um dos responsáveis gráficos da série Blake e Mortimer, tendo colaborado nos álbuns O Estranho Encontro, A Maldição dos Trinta Denários, A Onda Septimus e O Bastão de Licurgo, mas os leitores portugueses conhecem-no também graças ao livro O Segredo de Coimbra, que já teve três edições nacionais. Mas, embora fosse leitor de BD na infância e na adolescência, a vida profissional de Schréder iniciou-se numa área completamente diferente, porque depois de concluir os seus estudos em direito e em criminologia, o autor arranjou emprego no sistema prisional, na prisão de Bruxelas. Um emprego tão monótono como frustrante que lhe destruiu as ilusões sobre o sistemas judicial belga e que o obrigava a confrontar-se com uma realidade de que só conseguia fugir refugiando-se no álcool, até acabar por ser despedido.
Este livro debruça-se precisamente sobre o período de cinco anos, entre 1979 e 1984, em que Schréder, parafraseando Mário Cesariny, “fechou os olhos frente ao precipício e caiu verticalmente no vício”. Esse relato, sem grandes concessões, mas com algum pudor, pois como o próprio reconhece: “não se pode dizer tudo, um livro não é um esgoto”, centra-se sobretudo nos seus companheiros de adição e de marginalidade, deixando praticamente de fora a vida familiar do autor. Seja os seus pais, que apenas aparecem (sintomaticamente) no início do livro como fantasmas, passando pela ex-mulher, que está totalmente ausente, ou até os seus filhos, a quem o livro é dedicado.
Como bem refere João Ramalho Santos no prefácio, há um certo paralelismo entre Tempos Amargos e Journal d’une Disparition (Shissō Nikki) do japonês Hideo Azuma, um autor de mangá alcoólico que também viveu como um sem-abrigo, mas se Azuma manteve o seu estilo caricatural que usava nos seus trabalhos mais comerciais para este relato autobiográfico, já Schréder afasta-se da limpidez da “linha clara” de O Segredo de Coimbra, ou da série Blake & Mortimer, para abraçar um registo mais expressionista, feito de aguadas de guache, altos contraste de preto e branco, enquadramentos angulosos e perturbadores, com os cenários, desenhados com precisão fotográfica em O Segredo de Coimbra, a serem aqui por vezes apenas sugeridos, sem que com isso percam força. Veja-se, por exemplo, a sombra ameaçadora do Palácio de Justiça de Bruxelas, que domina a página 33. Em suma, uma mudança de registo perfeitamente adequada às necessidades da história e que mostra bem o domínio apurado que Schréder possui dos mecanismos narrativos da BD.
Outra diferença fundamental entre Schréder e Azuma, é que, se o segundo se refugiou no álcool para fugir à pressão dos prazos que uma carreira de autor de mangá de sucesso obriga, já Schréder encontrou na BD a realização pessoal e profissional. Isso sucedeu graças a um curso nocturno de BD ministrado por Alain Goffin, que frequentou em 1984 e que lhe possibilitou trabalhar com diversos autores, como o próprio Goffin, Yslaire, Raoul Servais e sobretudo com Schuiten e Peeters, dupla que teve um peso decisivo na sua afirmação como autor completo. Um autor que neste tocante Tempos Amargos, revela todo o seu talento e sensibilidade pela forma como consegue transmitir ao leitor um momento marcante e complexo da sua vida.  
Publicado originalmente no jornal Público de 02/09/2017

sábado, 2 de setembro de 2017

Novelas Gráficas III 10 - Histórias do Bairro

UMA INFÂNCIA NO BARRIO CHINO

Novela Gráfica III – Vol. 10
Histórias do Bairro
Sexta, 01 de Setembro
Argumento – Gabi Beltrán
Desenho – Bartolomé Segui
Por + 9,99€
Depois de Miguelanxo Prado e Max, chegou a vez dos leitores portugueses descobrirem mais um exemplo da incrível vitalidade da novela gráfica espanhola, com Histórias do Bairro, de Gabi Beltran e Bartolomé Segui, o décimo volume desta série III, que chega aos quiosques de todo o país na próxima sexta-feira, 1 de Setembro.
Embora na edição portuguesa surja num único volume, Histórias do Bairro foi publicado originalmente em dois volumes, o primeiro dos quais, 10 Histórias del Barrio, arrebatou o Prémio Ciutat de Palma de Cómic, em 2011, sendo publicado pela editora basca Astiberri, como título abreviado de Historias del Barrio, menos de um ano depois, na prestigiada colecção Sillon Orejerro, que acolhe, entre outras, as obras de Paco Roca e também do português José Carlos Fernandes. Seguiu-se, em 2014, a segunda parte da história da adolescência do jovem Gabi, em Historias del Barrio: Caminos, mas o próprio Beltran é o primeiro a apontar que os dois volumes formam uma única história referindo que este segundo volume: “não é uma continuação em si. Quando acabamos com tudo isto, só haverá uma obra.”
Relato sem concessões de uma infância e uma adolescência passadas no bairro Sa Gerreria, o barrio chino da cidade de Palma de Maiorca, a capital das ilhas Baleares, numa altura em que a ilha não era o destino turístico que hoje é, Histórias do Bairro retrata um dia-a-dia de pobreza, marcado pelas drogas, delinquência e prostituição Para além dos seus amigos e companheiros de brincadeiras que ultrapassavam largamente os limites da legalidade, ficamos a conhecer também os gostos musicais e literários de Gabi, que não são diferentes dos de qualquer adolescente português de inícios da década de 80. Veja-se a T-shirt dos Joy Division, que Gabi veste ao longo de todo livro, ou a importância que a música Golden Brown dos Stranglers adquire na história O Descapotável. Já em termos literários, Beltran utiliza as leituras do jovem Gabi para enquadrar as histórias na época e também reflectir o seu próprio amadurecimento intelectual, com as revistas de BD icónicas da transição para a democracia, como a Totem ou a 1984 a darem lugar nos capítulos finais, a escritores como Steinbeck, Hemigway ou F. Scott Fitzgerald, nomes maiores da chamada “geração perdida”, que Gabi vai descobrir nas estantes da mulher mais velha que lhe mostra que o mundo pode ser bem mais vasto do que o Barrio Chino.
Embora seja também ele ilustrador, Gabi Beltrán assume-se aqui como escritor, algo evidente nos textos de cariz autobiográfico que intercalam cada uma das histórias, e ocupa-se “apenas” do argumento e das cores de Histórias do Bairro, entregando o desenho ao seu conterrâneo Bartolomé Segui, que conhece muito a Palma de Maiorca dos inícios da década de 80, por nela ter vivido. Vencedor, com Felipe Hernandez Cava, do Prémio Nacional del Comic em 2009, com Las Serpientes Cegas, Segui opta aqui por um estilo mais caricatural e de legibilidade mais imediata, que dá um toque visualmente mais agradável a uma realidade de grande dureza, o que ajuda o leitor a entrar mais facilmente na história.
Mas, melhor do que eu, deixemos que seja Alvaro Pons a exaltar os méritos do desenhador (e da linguagem da BD): “…Seguí adapta-se às necessidades do argumentista e sabe integrar os relatos de Beltrán num nível narrativo duplo: por um lado, a voz do narrador, que flui independente no exercício da memória; por outro, as histórias que se vão contando, que se vão apoiando no primeiro relato, mas sem perder a sua própria autonomia. Seguí consegue gerir os silêncios gráficos, pese embora a voz de fundo do narrador, fazendo chocar esse texto de natureza puramente literária com a força da narração visual para obter efeitos impensáveis em qualquer outra arte”.
Publicado originalmente no jornal Público de 26/08/2017

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Evocando Bernie Wrightson


Como já tive ocasião de referir aqui, no nº 22 da revista Bang!, que chegou às lojas FNAC em Julho, tive oportunidade de homenagear Bernie Wrightson, o mestre do terror falecido a 18 de Março.
Aqui vos deixo o texto que publiquei na Bang!, com uma série de ilustrações que acabaram por não entrar na revista. Boa leitura!

EVOCANDO BERNIE WRIGHTSON

No passado dia 18 de Março, faleceu, vítima de um tumor cerebral, o desenhador americano Bernie Wrightson, co-criador de Swamp Thing, o Monstro do Pântano, entre muitas outras coisas. Apesar de, como infelizmente é habitual em Portugal, não haver praticamente nada deste autor publicado em edição nacional, com a excepção de alguns episódios de Swamp Thing publicados nos anos 80 no Mundo de Aventuras, isso em nada diminui a importância do seu trabalho, dividido entre a Banda Desenhada e a ilustração, com ligações à literatura e ao cinema. Um trabalho fantástico e de grande impacto visual, muito centrado no terror e no fantástico, que este artigo procura dar a descobrir aos leitores da revista Bang!

AS RAÍZES DE UMA CARREIRA

Nascido em 1948, na semana de Halloween, em Baltimore, Mariland, na mesma cidade onde nasceu o escritor Edgar Alan Poe, não admira que Wrightson se tenha tornado, também ele, um Mestre do Terror. A sua atracção pelo género fantástico veio desde cedo, e foi alimentada pelas revistas de terror da editora EC Comics e por programas radiofónicos, como The Lights Out, que encenava, em versão de teatro radiofónico, pequenos contos de terror na linha dos publicados na revista Tales From the Crypt, da EC Comics, que o pequeno Bernie lia às escondidas.
Com o fecho das revistas de terror da EC, provocado pela instauração do Comics Code, um código de autocensura que vinha impor restrições concretas às publicações de Banda Desenhada, Wrightson só voltaria a ter oportunidade de ler histórias de terror em BD em meados dos anos 60, quando o editor James Warren lança a revista Creepy, que recuperava a tradição das histórias de terror da EC Comics. Dono de um império editorial iniciado em 1958 com a revista Famous Monsters of Filmland, dedicada ao cinema de terror, em que a BD estava ausente, Warren estreia-se na BD em 1964, com o primeiro número da revista Creepy, uma publicação a preto e branco em formato magazine - ligeiramente superior ao tradicional formato comic book e, por isso mesmo, livre das restrições do Comics Code, que se aplicava apenas às publicações em formato comic book - que reunia artistas do calibre de um Frank Frazetta, Al Williamson, Angelo Torres e Gray Morrow, ilustrando argumentos de escritores como Archie Goodwin e Bruce Jones.

E foi precisamente nas páginas do nº 9 da revista Creepy que o jovem Bernie Wrightson se estreou, com uma ilustração publicada no correio dos leitores em 1966, ainda antes de começar a colaborar como ilustrador no jornal The Baltimore Sun. Mas o acontecimento que mudou a sua vida ocorreu um ano depois, em 1967. Foi a World Science Fiction Convention, em Nova Iorque, que tinha Hall Foster e Frank Frazetta como convidados e onde Bernie conheceu Al Williamson (um dos grandes desenhadores da EC), Dick Giordano (desenhador e editor da DC Comics) e dois jovens autores que se tornariam seus grandes amigos: Jeffrey Jones e Michael Kaluta. Através deles, Wrightson conheceu Carmine Infantino, o director editorial da DC, que gostou do trabalho dele e o convidou a colaborar na revista House of Secrets, uma publicação antológica que recolhia histórias de fantasia e policiais, mas que os editores pretendiam encaminhar mais para o registo do terror.
Foi para o nº 92 dessa revista que Wrightson, que entretanto já estava a morar em Nova Iorque, desenhou Swamp Thing, uma história de oito páginas, escrita por Len Wein. Wrightson, que teve apenas uma semana para desenhar a história,  teve de recorrer bastante a referências fotográficas (com Jeffrey Jones a tirar as fotos e a sua mulher Louise, Mike Kaluta e o próprio Wrightson a servirem como modelos) e precisou ainda da ajuda de Jones no desenho e na passagem a tinta de algumas páginas, para acabar a história a tempo. Embora não seja dos melhores trabalhos de Wrightson, longe disso, a história teve um sucesso incrível e nesse mês a House of Secrets foi o título da DC mais vendido, suplantando as revistas do Batman e do Superman.

Perante tal sucesso, não admira que a editora tenha decidido explorar o filão e, cerca de um ano depois, em 1972, o Monstro do Pântano regressava finalmente numa nova encarnação contemporânea (a história original passava-se no século XIX) como cabeça de cartaz de uma nova revista mensal, escrita por Wein e desenhada por Wrightson. Ao longo de dez números, publicados a cada dois meses, os dois criadores exploraram os diferentes nichos do terror literário e cinematográfico e houve ainda espaço para um memorável encontro entre o Batman e o Monstro do Pântano. Até que Wrightson se fartou e decidiu abandonar a série, sendo seguido três números depois por Len Wein, que só voltaria à série como editor, quase dez anos depois, sendo então responsável pela escolha de um jovem escritor inglês chamado… Alan Moore, para argumentista. Mas isso já é uma outra história…


A ÉPOCA WARREN

Uma das razões que levou Wrightson a abandonar a revista do Monstro do Pântano no auge da sua popularidade, para além de um certo cansaço criativo, foi a desilusão do desenhador orgulhoso do seu trabalho, ao ver as suas histórias mal impressas, com uma cor empastelada que escondia os detalhes do seu traço pormenorizado. Daí que tenha aceitado imediatamente o convite do editor James Warren para colaborar nas revistas Creeepy e Eerie, da Warren.
Aí, para além de ver o seu trabalho publicado a preto e branco, em revistas muito bem impressas, num formato maior do que o dos comics tradicionais, Wrightson foi receber 110 dólares por página, bem acima dos 65 dólares que recebia na DC, podendo ainda recuperar os seus desenhos originais, algo que os contratos da DC e Marvel ainda não contemplavam. Foi nestas condições, rodeado de alguns dos desenhadores que mais admirava, como All Williamson, Frank Frazetta, Richard Corben e Carmine Infantino, cujos desenhos passou a tinta em algumas histórias, que Wrightson assinou alguns dos seus melhores trabalhos, entre 1974 e 1982, seja adaptando clássicos da literatura como The Black Cat de Edgar Alan Poe, ou Cool Air, de Lovecraft, seja ilustrando argumentos de Bill Dubay e Bruce Jones, como em Jenifer, uma história memorável que seria adaptada à televisão por Dario Argento, para a série Master of Horror.


FRANKENSTEIN E O THE STUDIO

Entre a dúzia de histórias que desenhou para a Warren, está The Muck Monster, uma das raras histórias que também escreveu e que seria publicada no nº 68 da revista Eerie, numa versão a cores contra a vontade do próprio Wrightson. Para além do extraordinário trabalho gráfico de Wrightson, esta variação sobre a história do Dr. Frankenstein contada na perspectiva do monstro, pode ser vista como um ensaio para o trabalho da sua vida, as ilustrações para o Frankenstein de Mary W. Shelley. Quase cinquenta ilustrações, realizadas ao longo de sete anos, que o próprio autor considera muito justamente como o seu melhor trabalho de sempre. Com um estilo evocativo da gravura, influenciado pelas ilustrações de Franklin Booth, as ilustrações de Wrightson para o Frankenstein são um assombro de detalhe, qualidade de composição e dramatismo. Imagens tão belas como espectaculares, que conquistaram coleccionadores como os cineastas Guillermo Del Toro e George Lucas, que compraram vários dos originais.

Publicado originalmente pela Marvel em 1982, o Frankenstein de Bernie Wrightson, seria reeditado pela Underwood-Miller em 1994 e pela Dark Horse em 2008, numa luxuosa edição comemorativa do 25º aniversário da publicação original, mas todas estas edições estão completamente esgotadas atingindo preços proibitivos no EBay.
Foi nesse período, em que começava privilegiar a ilustração em relação à BD, realizando uma série de ilustrações para posters e portfolios para a Cristopher Entreprises, incluindo ilustrações sobre obras de Edgar Alan Poe e um livro de monstros para colorir, que Wrightson decidiu procurar um espaço de trabalho fora de casa.
Tudo começou a partir de uma conversa com Barry Windsor-Smith, o desenhador de Conan, que andava à procura de um espaço para instalar o seu atelier e que acabou por encontrar um excelente local num sótão amplo e cheio de luz, num prédio no bairro de Chelsea, no centro de Manhattan. Como a renda do espaço, que servia de arrecadação para uma tipografia, era de 400 dólares, e nenhum dos artistas conseguia pagar mais de 100 dólares por mês, convidaram Jeff Jones e Mike Kaluta para dividir o espaço e (sobretudo) a renda.
Nascia assim, em 1976, por motivos puramente pragmáticos, o Studio. Um espaço que era essencialmente um local de trabalho de quatro artistas que procuravam transcender o mundo dos comics, e também um espaço de encontro e de convívio (as festas no Studio ficaram famosas no meio da BD), mas que adquiriu uma dimensão quase mítica, face à incrível concentração de talento debaixo do mesmo tecto, que um livro/catálogo da Paper Tiger, a editora que publicava os livros com as ilustrações de Roger Dean para as capas dos discos dos Yes, registou para a posteridade.
Tudo começou quando um representante da editora, que estava em Nova Iorque para preparar um livro sobre os dez melhores ilustradores americanos de fantasia acabou por ir parar ao Studio e descobrir fascinado o espaço e o trabalho dos quatro autores. Mas deixemos que seja o próprio Bernie Wrightson a contar como tudo se passou: “o espaço era grandioso. Tínhamo-lo decorado como os salões de Paris na viragem do século. Sabíamos que era um espaço fantástico. Sabíamos que quando se entrava ali, era como entrar na caverna de Aladino, cheia de tesouros. Então falámos com o tipo, acho que saímos para jantar e, no fim do dia, ele tinha modificado os seus planos de um livro sobre os dez melhores artistas de fantasia, para um livro só sobre nós os quatro. Ao longo daquela tarde, passámos de quatro gajos que precisavam de um espaço maior para trabalhar, para os Beatles da Arte Fantástica.”
Curiosamente, quando o livro saiu em 1979, o Studio já não existia e os quatro artistas estavam cada um para seu lado, mas isso não impediu que a memória do Studio continue a influenciar artistas um pouco por todo o lado, como acontece ainda agora em Portugal com o Lisbon Studio.


DE STEPHEN KING AO CINEMA

Entre as capas e algumas BDs ocasionais que fez para a Marvel e DC e outros trabalhos mais inesperados, como uma capa para o disco Dead Ringer de Meatloaf, Wrightson iniciou uma colaboração com o escritor Stephen King, que começou com um calendário que se transformou em livro, The Cycle of the Werewolf e que incluiu ilustrações para romances de King como The Stand e The Dark Tower, passando pela adaptação à BD de um filme que homenageava precisamente as BDs de horror da EC e da Warren que marcaram a vida de Wrightson. O filme chamava-se Creepshow e juntou King a George Romero (o inventor dos zombies no cinema com The Night of the Living Dead ) e Wrightson teve apenas três meses para desenhar as 64 páginas da adaptação à BD que a sua mulher, Michelle, coloriu. Um desafio arriscado, que venceu com sucesso assinalável.
Essa não foi a única experiência de Wrightson no cinema, pois além de ter trabalhado como artista conceptual nos filmes Ghostbusters I e II, Firefly, The Green Mile, Dark Country, The Mist e no primeiro Spider-Man de Sam Raimi, Captain Stern, uma história curta que fez para a revista Heavy Metal, foi adaptada directamente num dos capítulos do filme de animação com o mesmo nome.


O REGRESSO À BANDA DESENHADA

Apesar do seu trabalho como ilustrador, Wrightson nunca cortou completamente com a BD tendo desenhado diversas histórias ao longo das últimas três décadas, com destaque para o Batman, que desenhou na mini-série The Cult, de 1987, uma história sombria sobre um culto religioso em que o estilo do desenhador encaixa como uma luva, e voltaria a desenhar no primeiro encontro entre o Cavaleiro das Trevas e os monstros do filme Alien de Ridley Scott. 
Mas foi com o escritor Steve Niles, criador da série 30 Dias da Noite, que Wrightson colaborou mais directamente nos últimos anos, assinando livros como The Ghoul, City of Others (em que as cores de José Villarubia foram impressas directamente sobre o desenho a lápis de Wrightson, com excelentes resultados) e sobretudo Frankenstein Alive, Alive!, obra que assinalou o regresso do desenhador à obra de Mary Shelley e que valeria o prémio da National Cartonist Society para a Melhor BD de 2013.
Um regresso simbólico ao local onde foi mais feliz e que funcionaria como o canto de cisne do artista, cuja influência é visível em desenhadores como o alemão Andreas, ou americano Kelley Jones, entre outros.
Publicado originalmente na revista Bang! nº 22, em Julho de 2017

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Novela Gráfica III 9 - Os Livros da Magia

O APRENDIZ DE FEITICEIRO, 
NO MUNDO MÁGICO DE NEIL GAIMAN

Novela Gráfica III – Vol. 9
Os Livros da Magia
Sexta, 25 de Agosto
Argumento – Neil Gaiman 
Desenho – John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson
Por + 9,99€
Depois da publicação da série Sandman, Neil Gaiman regressa com Os Livros da Magia, a mini-série que lançou Tim Hunter no universo da DC e que chega finalmente a Portugal na próxima sexta-feira, integrada na terceira série da colecção Novela Gráfica.
Publicado originalmente como uma mini-série em quatro volumes entre 1990 e 1991, pensada para dar a conhecer aos leitores o universo de magia da DC, concentrado na linha Vertigo, Os Livros da Magia, eram para ser escritos por J. M De Matteis na forma de um livro ilustrado, em que as páginas de texto alternavam com ilustrações de página inteira de Jon J Muth, Kent Williams e Dave McKean.
Quando alguns destes artistas se desinteressaram do projecto, o próprio De Matteis decidiu também afastar-se e a editora Karen Berger virou-se para a escolha óbvia: Neil Gaiman. Mas deixemos que seja o próprio Gaiman a contar como tudo se passou: “Karen telefonou-me e disse, “Queremos fazer um livro que seja um Quem é Quem, um guia e uma história de todos os nossos personagens mágicos. Mas em vez de um Quem é Quem no Universo DC, seria uma BD com uma história e um enredo. Consegues fazer isso?”. Ri-me na cara dela, disse-lhe, “Não sejas tola”, e desliguei. Um dia depois, estava muito bem sentado e de repente apercebi-me como fazer essa história de uma maneira que funcionasse. Liguei logo à Karen, inebriado com o entusiasmo do meu próprio génio e disse-lhe, ”Pode ser feito!”. Ela disse “ainda bem” e mandou-me o contrato.”
O plano de Gaiman assentava num miúdo inglês de doze anos, Timothy Hunter, que descobre que está destinado a ser o maior feiticeiro de sempre e que vai ter como guia aos recantos mágicos do universo DC, a Brigada das Gabardinas, constituída por John Constantine, Phantom Stranger, Dr. Oculto e Mister E.
Ao longo dos quatro capítulos da história, desenhados respectivamente por John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson, cada um dos magos dá a descobrir ao jovem Hunter uma faceta e uma época diferente do Universo DC. No primeiro capítulo, ilustrado por Bolton, o Phantom Stranger mostra-lhe o nascimento do universo e o aparecimento da magia na Terra. No segundo, pintado por Scott Hampton, John Constantine, personagem que Gaiman já tinha escrito nos primeiros capítulos da série Sandman, leva Tim numa viagem à América, onde este conhece Zatanna, entre outras personagens do universo mágico da DC. No terceiro capítulo, Charles Vess, que tinha acabado de trabalhar com Gaiman em Sandman, dá vida com o seu traço inconfundível à visita de Tim e do Dr. Oculto ao Faerie, o reino das fadas. Finalmente, no último capítulo, ilustrado por Paul Johnson, Mr. E leva Tim bem longe num possível futuro do Universo DC.
A diferença de registos gráficos dos quatro capítulos ilustrados em cor directa e com uma grande diversidade de técnicas, fazem de Livros da Magia um livro belíssimo e visualmente espectacular, mas foi a história de Gaiman que mais contribuiu para o sucesso de Livros da Magia, que daria origem a uma série mensal que durou 75 números (tantos quanto o Sandman) e a diversas mini-séries, publicadas entre 1992 e 2005.
Apesar da figura de Tim Hunter ser fisicamente baseada no filho de John Bolton, houve também quem visse nele a principal fonte de inspiração de J. K. Rowling para o seu Harry Potter, publicado sete anos depois. Mas Gaiman é o primeiro a afastar estas suspeitas, referindo: “Eu não fui certamente o primeiro escritor a criar um miúdo com óculos com o potencial para se tornar o mais poderoso mágico do mundo. Criar um miúdo com poderes mágicos – ou, mais importante, com potencial para a magia – e usar corujas e outras coisas do género, são coisas bastante óbvias tendo em conta a tradição da literatura fantástica. J. K. Rowling não foi a primeira pessoa a mandar um miúdo para uma escola de feiticeiros. De Jane Yolen e Diane Dune, nos tempos recentes, até escritores mais antigos, como T. H. White e E. Nesbit, não faltam exemplos.”
Publicado originalmente no jornal Público de 19/08/2017